sexta-feira, 29 de setembro de 2006

(a linguagem é um problema para você?)


Andres Serrano, The Morgue (Pneumonia Due to Drowning, II), 1992


"Os sentimentos vastos não têm nome. Perdas, deslumbramentos, catástrofes do espírito, pesadelos da carne, os sentimentos vastos não têm boca, fundo de soturnez, mudo desvario, escuros enigmas habitados de vida mas sem sons, assim eu neste instante diante do teu corpo morto."

(Hilda Hilst, Rútilo Nada)

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Io non ballo... Ma ci penso continuamente...



(Ella)
Think of what you're losing by constantly refusing to dance with me
You'd be the idol of France with me
And yet you stand there and shake your foolish head dramatically
While wait here so ecstatically
You just look and say emphatically;

(Louis)
I won't dance, don't ask me
I won't dance, don't ask me
I won't dance, madam, with you
My heart won't let my feet do things they should do

You know what, you're lovely
And so what? You're still lovely
And oh, what you do to me
I'm like an ocean wave that's bumped on the shore
I feel so absolutely stumped on the floor

When you dance you're charming and you're gentle
Especially when you do the continental
But this feeling isn't purely mental
For heaven rest us! I'm not asbestos

And that's why
I won't dance. Why should I?
I won't dance. How could I?
I won't dance, merci beaucoup
I know that music leads the way to romance
So if I hold you in my arms, I won't dance

(Ella)
I won't dance, don't ask me
I won't dance, don't ask me
I won't dance, monsieur, with you
My heart won't let my feet do things they should do

You know what, you're handsome
And so what? You're handsome
And oh, what you do to me
I'm like an ocean wave that's bumped on the shore
I feel so absolutely stumped on the floor

When you dance you're charming and you're gentle
Especially when you do the continental
But this feeling isn't purely mental
For heaven rest us! I'm not asbestos

And that's why
I won't dance. Why should I?
I won't dance. How could I?
I won't dance, merci beau coup
I know that music leads the way to romance
So if I hold you in my arms, I won't dance

(Louis)
I won't dance, don't ask me
I won't dance, don't ask me
I will not dance, madame, with you
My heart won't let my feet do things they should do

You know what? You're kinda lovely

(Ella)
And so what? I'm lovely

(Louis)
But oh, what you do to me
I'm like an ocean wave that's bumped on the shore
I feel so absolutely stumped on the floor

(Ella)
When you dance you're charming and you're gentle
Especially when you do the continental

(Louis)
But this feeling isn't purely mental
For heaven rest us! I'm not asbestos, honey!

(Ella)
And that's why
I won't dance. Why should I?
I won't dance. How could I?
I won't dance, merci beaucoup
I know that music leads the way to romance
So if I hold you in my arms, I won't dance

sábado, 16 de setembro de 2006

"eles, com suas infinitas conversas inúteis, com seus gestos excessivamente afeminados, artificiais, grotescos, rebaixando tudo, corrompendo tudo, até a autêntica fúria do que padece o terror, até o abusado ritual das patadas, das coronhadas nas nádegas, das bofetadas; até a cerimônia de um fuzilamento se convertia, se transformava para eles em um excesso de palavras rebuscadas, de poses, de brincadeiras; eles, reduzindo a dimensão da tragédia, da eterna tragédia da submissão, de sua eterna desgraça, à simples estridência de um barulho, tendo como estandarte a chacota, o riso, o marcado mexer de pestanas, os gestos ridículos, a mão como asa, a paródia vulgar de alguma dança clássica; eles, pintando o rosto com o que aparecesse, improvisando perucas com franja de palha e folhas de pita, remendando minissaias com sacos de juta habilmente subtraídos de armazéns custodiados, e na noite confundindo suas insatisfações, gritando, soltando sua estúpida gíria, seus estúpidos dotes exibicionistas, suas máscaras que já, de tanto serem usadas, haviam passado a ser seus próprios rostos..."

("Arturo, a estrela mais brilhante", de Reinaldo Arenas
In A Velha Rosa, trad. Silvia Costa. Record, 1996)



sábado, 2 de setembro de 2006

ISSO É RODAR NA RODA, MEU BEM

Quando eu era adolescente li muito do Caio Fernando Abreu. Tudo o que deu. Aí o tempo foi passando, a gente lê outras coisas, entra em outras. O Caio foi ficando pra trás, mirrado, murcho, junto com um monte de coisa ruim e vaziazinha, incompleta. Os textos são muito fracos, muitos deles. Um amigo meu disse: pra dar pra moleque de dezesseis anos, pra despirocar, esses que ainda se identificam com novelas, que choram em último capítulo, as bichinhas reprimidas, suicidas. E olha que no meu tempo nem tinha internet!

Porque o Caio é bastante ingenuozinho, boa parte das vezes. Quando ele começa a falar em anjo dá até um comichão, uma vergonha alheia. Mas tem uns textos... tem uns que acompanham. Acompanham a vida, entram na roda com a gente. Porque a gente sempre tá precisando despirocar. Porque a gente é careta e acomodado e no fundo todo mundo tem uma bichinha reprimida, suicida, ingenuazinha, que nunca sentiu o cheiro de uma virilha molhada e morre de medo e de vontade. Morre.

Sempre leio o Caio com nostalgia. Nem sempre. Alguém me mandou o "Dama da noite" por email e a nostalgia sumiu logo no primeiro parágrafo. "Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros..."

O resto do conto tá aí embaixo, bêbado, com raiva e com rancor, esperando por um leitor.
DAMA DA NOITE
Caio Fernando Abreu


Para Márcia Denser

"E sonho esse sonho que se estende
em rua, em rua em rua
em vão."

(Lucia Villares: Papos de Anjo)



Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam para se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa roda-gigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá, rodando junto com eles nessa roda idiota - tá me entendendo, garotão?

Nada, você não entende nada. Dama da noite. todos me chamam e nem sabem que durmo o dia inteiro. Não suporto: luz, também nunca tenho nada pra fazer - o quê? Umas rendas aí. É, macetes. Não dou detalhe, adianta insistir. Mutreta, trambique, muamba. Já falei: não adianta insistir, boy . Aprendi que, se eu der detalhe, você vai sacar que tenho grana e se eu tenho grana você vai querer foder comigo só porque eu tenho grana. E acontece que eu ainda sou babaca, pateta e ridícula o suficiente para estar procurando O verdadeiro amor. Pára de rir, senão te jogo já este copo na cara. Pago o copo, a bebida. Pago o estrago e até o bar, se ficar a fim de quebrar tudo. Se eu tô tesuda e você anda duro e eu precisar de cacete, compro o teu, pago o teu. Quanto custa? Me diz que eu pago. Pago bebida, comida, dormida. E pago foda também, se for preciso.

Pego, claro que eu pego. Pego sim, pego depois. É grande? Gosto de grande, bem grosso. Agora não. Agora quero falar na roda. Essa roda, você não vê, garotão? Está por aí. rodando aqui mesmo. Olha em volta, cara. Bem do teu lado. Naquela mina ali, de preto, a de cabelo arrepiadinho. Tá bom, eu sei: pelo menos dois terços do bar veste preto e tem cabelo arrepiadinho, inclusive nós. Sabe que, se há uns dez anos eu pensasse em mim agora aqui sentada com você, eu não ia acreditar? Preto absorve vibração negativa, eu pensava. O contrário de branco, branco reflete. Mas acho que essa moçada tá mais a fim mesmo é de absorver, chupar até o fundo do mal - hein? Depois, até posso. Tem problema, não. Mas não é disso que estou falando agora, meu bem.

Você não gosta? Ah, não me diga, garotinho. Mas se eu pago a bebida, eu digo o que eu quiser, entendeu? Eu digo meu-bem assim desse jeito, do jeito que eu bem entender. Digo e repito: meu-bem-meu-bem-meu-bem. Pego no seu queixo a hora que eu quiser também, enquanto digo e repito e redigo meu-bem-meu-bem. Queixo furadinho, hein? Já observei que homem de queixo furadinho gosta mesmo é de dar o rabo. Você já deu o seu? Pelo amor de Deus, não me venha com aquela história tipo sabe, uma noite, na casa de um pessoal em Boiçucanga, tive que dormir na mesma cama com um carinha que. Todo machinho da sua idade tem loucura por dar o rabo, meu bem. Ascendente Câncer, eu sei: cara de lua, bunda gordinha e cu aceso. Não é vergonha nenhuma: tá nos astros, boy. Ou então é veado mesmo, e tudo bem.

Levanta não, te pago outra vodca, quer? Só pra deixar eu falar mais na roda. Você é muito garoto, não entende dessas coisas. Deixa a vida te lavrar a cara, antes, então a gente. Bicho, esquisito: eu ia dizer alma, sabia? Quer que eu diga? Tá bom, se você faz tanta questão, posso dizer. Será que ainda consigo, como é que era mesmo? Assim: deixa a vida te lavrar a alma, antes, então a gente conversa. Deixa você passar dos trinta, trinta e cinco, ir chegando nos quarenta e não casar e nem ter esses monstros que eles chamam de filhos, casa própria nem porra nenhuma. Acordar no meio da tarde, de ressaca, olhar sua cara arrebentada no espelho. Sozinho em casa, sozinho na cidade, sozinho no mundo. Vai doer tanto, menino. Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa para te aconchegar ao meu seio e te poupar essas futuras dores dilaceradas. Como queria tanto saber poder te avisar: vai pelo caminho da esquerda, boy, que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha.

A roda? Não sei se é você que escolhe, não. Olha bem pra mim - tenho cara de quem escolheu alguma coisa na vida? Quando dei por mim, todo mundo já tinha decorado a tal palavrinha-chave e tava a mil, seu lugarzinho seguro, rodando na roda. Menos eu, menos eu. Quem roda na roda fica contente. Quem não roda se fode. Que nem eu, você acha que eu pareço muito fodida? Um pouco eu sei que sim, mas fala a verdade: muito? Falso, eu tenho uns amigos, sim. Fodidos que nem eu. Prefiro não andar com eles, me fazem mal. Gente da minha idade, mesmo tipo de. Ia dizer problema, puro hábito: não tem problema. Você sabe, um saco. Que nem espelho: eu olho pra cara fodida deles e tá lá escrita escarrada a minha própria cara fodida também, igualzinha à cara deles. Alguns rodam na roda, mas rodam fodidamente. Não rodam que nem você. Você é tão inocente, tão idiotinha com essa camisinha Mr. Wonderful. Inocente porque nem sabe que é inocente. Nem eles, meus amigos fodidos, sabem que não são mais. Tem umas coisas que a gente vai deixando, vai deixando, vai deixando de ser e nem percebe. Quando viu, babau, já não é mais. Mocidade é isso aí, sabia? Sabe nada: você roda na roda também, quer uma prova? Todo esse pessoal da preto e cabelo arrepiadinho sorri pra você porque você é igual a eles. Se pintar uma festa, te dão um toque, mesmo sem te conhecer. Isso é rodar na roda, meu bem.

Pra mim, não. Nenhum sorriso. Cumplicidade zero. Eu não sou igual a eles, eles sabem disso. Dama da noite, eles falam, eu sei. Quando não falam coisa mais escrota, porque dama da noite é até bonito, eu acho. Aquela flor de cheiro enjoativo que só cheira de noite, sabe qual? Sabe porra: você nasceu dentro de um apartamento, vendo tevê. Não sabe nada. fora essas coisas de vídeo, performance, high-tech, punk, dark. computador, heavy-metal e o caralho. Sabia que eu até vezenquando tenho mais pena de você e desses arrepiadinhos de preto do que de mim e daqueles meus amigos fodidos? A gente teve uma hora que parecia que ia dar certo. Ia dar, ia dar. sabe quando vai dar? Pra vocês, nem isso. A gente teve a ilusão, mas vocês chegaram depois que mataram a ilusão da gente. Tava tudo morto quando você nasceu, boy, e eu já era puta velha. Então eu tenho pena. Acho que sou melhor, sei porque peguei a coisa viva. Tá bom, desculpa, gatinho. Melhor, melhor não. Eu tive mais sorte, foi isso? Eu cheguei antes. E até me pergunto se não é sorte também estar do lado de fora dessa roda besta que roda sem fim, sem mim. No fundo, tenho nojo dela - você?

Você não viu nada, você nem viu o amor. Que idade você tem, vinte? Tem cara de doze. Já nasceu de camisinha em punho, morrendo de medo de pegar Aids. Vírus que mata. neguinho, vírus do amor. Deu a bundinha, comeu cuzinho. pronto: paranóia total. Semana seguinte, nasce uma espinha na cara e salve-se quem puder: baixou Emílio Ribas. Caganeira, tosse seca, gânglios generalizados. Õ boy, que grande merda fizeram com a tua cabecinha, hein? Você nem beija na boca sem morrer de cagaço. Transmite pela saliva, você leu em algum lugar. Você nem passa a mão em peito molhado sem ficar de cu na mão. Transmite pelo suor, você leu em algum lugar. Supondo que você lê, claro. Conta pra tia: você lê, meu bem? Nada, você não lê nada. Você vê pela tevê, eu sei. Mas na tevê também dá, o tempo todo: amor mata amor mata amor mata. Pega até de ficar do lado, beber do mesmo copo. Já pensou se eu tivesse? Eu, que já dei pra meia cidade e ainda por cima adoro veado.

Eu sou a dama da noite que vai te contaminar com seu perfume venenoso e mortal. Eu sou a flor carnívora e noturna que vai te entontecer e te arrastar para o fundo de seu jardim pestilento. Eu sou a dama maldita que, sem nenhuma piedade, vai te poluir com todos os líquidos, contaminar teu sangue com todos os vírus. Cuidado comigo: eu sou a dama que mata, boy. Já chupou buceta de mulher? Claro que não, eu sei: pode matar. Nem caralho de homem: pode matar. Já sentiu aquele cheiro molhado que as pessoas têm nas virilhas quando tiram a roupa? Está escrito na sua cara, tudo que você não viu nem fez está escrito nessa sua cara que já nasceu de máscara pregada. Você já nasceu proibido de tocar no corpo do outro. Punheta pode, eu sei, mas essa sede de outro corpo é que nos deixa loucos e vai matando a gente aos pouquinhos. Você não conhece esse gosto que é o gosto que faz com que a gente fique fora da roda que roda e roda e que se foda rodando sem parar, porque o rodar dela é o rodar de quem consegue fingir que não viu o que viu. O boy, esse mundo sujo todo pesando em cima de você, muito mais do que de mim e eu ainda nem comecei a falar na morte...

Já viu gente morta, boy? É feio, boy. A morte é muito feia, muito suja, muito triste. Queria eu tanto ser assim delicada e poderosa, para te conceder a vida eterna. Queria ser uma dama nobre e rica para te encerrar na torre do meu castelo e poupar você desse encontro inevitável com a morte. Cara a cara com ela, você já esteve? Eu, sim, tantas vezes. Eu sou curtida, meu bem. A gente lê na sua cara que nunca. Esse furinho de veado no queixo, esse olhinho verde me olhando assim que nem eu fosse a Isabella Rossellini levando porrada e gostando e pedindo eat me eat me, escrota e deslumbrante. Essa tontura que você está sentindo não é porre, não. É vertigem do pecado, meu bem, tontura do veneno. O que que você vai contar amanhã na escola, hein? Sim, porque vocé ainda deve ir à escola, de lancheira e tudo. Já sei: conheci uma mina meio coroa, porra-louca demais. Cretino, cretino, pobre anjo cretino do fim de todas as coisas. Esse caralhinho gostoso aí, escondido no meio das asas, é só isso que você tem por enquanto. Um caralhinho gostoso, sem marca nenhuma. Todo rosadinho. E burro. Porque nem brochar você deve ter brochado ainda. Acorda de pau duro, uma tábua, tem tesão por tudo, até por fechadura. Quantas por dia? Muito bem, parabéns: você tá na idade. Mas anota aí pro teu futuro cair na real: essa sede, ninguém mata. Sexo é na cabeça: você não consegue nunca. Sexo é só na imaginação. Você goza com aquilo que imagina que te dá o gozo, não com uma pessoa real, entendeu? Você goza sempre com o que tá na sua cabeça, não com quem tá na cama. Sexo é mentira, sexo é loucura, sexo é sozinho, boy.

Eu, cansei. Já não estou mais na idade. Quantos? Ah, você não vai acreditar, esquece. O que importa é que você entra por um ouvido meu e sai pelo outro, sabia? Você não fica. você não marca. Eu sei que fico em você, eu sei que marco você. Marco fundo. Eu sei que, daqui a um tempo, quando você estiver rodando na roda, vai lembrar que, uma noite. sentou ao lado de uma mina louca que te disse coisas, que te falou no sexo, na solidão, na morte. Feia, tão feia a morte, boy. A pessoa fica meio verde, sabe? Da cor quase assim desse molho de espinafre frio. Mais clarinho um pouco, mas isso nem é o pior. Tem uma coisa que já não está mais ali, isso é o mais triste. Você olha, olha e olha e o corpo fica assim que nem uma cadeira. Uma mesa, um cinzeiro, um prato vazio. Uma coisa sem nada dentro. Que nem casca de amendoim jogada na areia, é assim que a gente fica quando morre, viu, boy? E você, já descobriu que um dia também vai morrer?

Dou, claro. Ficou nervosinho, quer cigarro? Mas nem fumar você fuma, o quê? Compreendo, compreendo sim, eu compreendo sempre, sou uma mulher muito compreensiva. Sou tão maravilhosamente compreensiva e tudo que, se levar você pra minha cama agora e amanhã de manhã você tiver me roubado toda a grana, não pense que vou achar você um filho da puta. Não é o máximo da compreensão? Eu vou achar que você tá na sua, um garotinho roubando uma mulher meio pirada, meio coroa, que mexeu com sua cabecinha de anjo cretino desse nojento fim de todas as coisas. Tá tudo bem, é assim que as coisas são: ca-pi-ta-lis-tas, em letras góticas de neon. Mulher pirada e meio coroa que nem eu tem mais é que ser roubada por um garotinho ïmbecil e tesudinho como você. Só pra deixar de ser burra caindo outra vez nessa armadilha de sexo.

Fissura, estou ficando tonta. Essa roda girando girando sem parar. Olha bem: quem roda nela? As mocinhas que querem casar, os mocinhos a fim de grana pra comprar um carro, os executivozinhos a fim de poder e dólares, os casais de saco cheio um do outro, mas segurando umas. Estar fora da roda é não segurar nenhuma, não querer nada. Feito eu: não seguro picas, não quero ninguém. Nem você. Quero não, boy. Se eu quiser, posso ter. Afinal, trata-se apenas de um cheque a menos no talão, mais barato que um par de sapatos. Mas eu quero mais é aquilo que não posso comprar. Nem é você que eu espero, já te falei. Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar. Diferente dessa gente toda vestida de preto, com cabelo arrepiadinho. Se quiser eu piro, e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir. Mas isso é filme, ele não. Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. É por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. Não por você, por outros como você. Pra ele, me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado, comigo: um dia encontro.

Só por ele, por esse que ainda não veio, te deixo essa grana agora, precisa troco não, pego a minha bolsa e dou a fora já. Está quase amanhecendo, boy. As damas da noite recolhem seu perfume com a luz do dia. Na sombra, sozinhas, envenenam a si próprias com loucas fantasias. Divida essa sua juventude estúpida com a gatinha ali do lado, meu bem. Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui, continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. Parada pateta ridícula porra-louca solitária venenosa. Pós-tudo, sabe como? Darkérrima, modernésima, puro simulacro. Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada.

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

De férias findas a ver do trem
quem fica na praia brinca se banha
as férias deles não acabaram ainda:
será assim será assim
deixar a vida?


***


A vacanza conclusa dal treno vedere
chi ancora sulla spiaggia gioca si bagna
la loro vacanza non è ancora finita:
sarà così sarà così
lasciare la vita?


(Vivian Lamarque, tradução minha)

quarta-feira, 23 de agosto de 2006


"São Sebastião de cabeça para baixo
e rapaz pintando a ponte" (Leonilson, 1993)



ORIKI CRISTÃO DE SÃO SEBASTIÃO

são sebas
tião o de
dardos ador
nado nega
ção dos outros sãos sol
dado execu
tado

salva o servo à sua
espera neste
prédio pendurado
faz-me são
sebastião
o de dardos ador
nado

sábado, 19 de agosto de 2006

MOTE & REMATE

Alberto Mussa publicou, na revista Coyote do inverno passado, algumas traduções de poemas árabes, todos eles escritos por mulheres que viveram entre a segunda metade do século VI e a primeira do VII.

O fato de eu não ter achado a menor graça nesses poemas deve ser, provavelmente, inabilidade do leitor. Porque já faz um tempo que eu tenho procurado poesia árabe pra ler, fui até num sarau que teve na Casa das Rosas, e nunca senti nada por essa literatura a não ser indiferença.

Mas não é possível que seja só incapacidade minha. Fico pensando: o que será que uma mulher beduína pré-islâmica entendia por "poesia"? E qual será o ponto de intersecção entre o que ela entendia e o que eu entendo?

Então resolvi tornar um desses poemas palatável pro meu entendimento. E, já que deu certo, achei por bem compartilhar com os amigos.





Chegado o seu dia, Abdullah enviou uma mensagem à tribo: não aceitem preço pelo meu sangue;

Não aceitem crias de camelo ou mesmo camelos na flor da idade - estando eu abandonado em Sada, sob uma tenda escura.

Oh, Amr, homem pacífico, deixa disso! Cabe na barriga de Amr mais comida que no estômago dos outros?

Se vocês não me vingarem, para deles cobrar preço de sangue, é melhor caminharem como avestruzes sem orelhas;

E não bebam senão os dejetos das mulheres, quando manchados têm de sangue os calcanhares.

(Kabsha Bint Madikarib, trad. de Alberto Mussa)







No
dia de seus dias
Abdullah envia à
tribo uma mensagem:
Não
aceitem preço por meu sangue;
Não
aceitem crias de camelo
nem jovens
camelos com meu corpo
inerte em Sada, em tenda escura,
só!

Oh
Amr, irmão,
queres paz? Mas
caberá quanto ouro em tua
mão?

Aceitem somente
preço de
sangue, vinguem
meu
sepulcro

ou

tirem seus
sapatos, agrilhoem os seus
pulsos e
na sede
limitem-se a tomar
o sangue das mulheres
que escorre ao
calcanhar

(adapt. Marcos Visnadi)

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

ENTRE AS ESTANTES

"Nada do que possuímos intelectualmente pode ser inteiramente perdido" - S. Freud


Se entramos numa biblioteca e escolhemos, ao acaso, tirar da estante um livro carcomido, uma edição de 1944 na qual ninguém encostava ao menos desde 1999. Dá pra pensar na biblioteca do Mattia Pascal, com o todo o conhecimento de um mundo confinado a uma paróquia de vilarejo - e o tempo matando tudo.

Acabei de ler Floradas na serra, da Dinah Silveira de Queiroz - que parece ter sido um tipo de best-seller dos anos 30, que virou filme nos 50 e teve sua última edição impressa nos 70. E que é um livro bobinho, cheio de gente morta, com algumas partes muito bonitas. Vou postar aqui dois trechos, sendo que o primeiro é pra ser lido em voz alta, lambendo as sílabas.

E neste post fica uma espécie de gratidão ao esquecimento.

***


"Entraram. Fazendo roda, moças e rapazes risonhos marcam a cadência e alguém dança. Dr. Celso rompe o círculo. Uma nuvem cor de rosa passa e repassa num rodopio constante."

***


"Havia na sua tristeza a sombra de uma vaidade mística"

sábado, 12 de agosto de 2006

CADERNO DE TRADUÇÕES
duas entrevistas com Pier Paolo Pasolini


Nos dias 29, 30 e 31 de agosto, na sala 266 da faculdade de Letras da USP (Cidade Universitária), o Projeto Literatura e Autoritarismo - do qual participo - promoverá um ciclo de filmes cujo título, "Violência como vivência", por si só já diz muita coisa.

Outra coisa que ajuda a entender o ciclo são os filmes selecionados: Laranja Mecânica, Cronicamente Inviável e, para abrir, Salò ou Os 120 Dias de Sodoma, de Pasolini. Censurado no Brasil até os anos 90, ainda não saiu comercialmente por aqui - e isso também quer dizer muita coisa.



Anyway: as exibições começarão às 14h e serão seguidas de apresentação e debate. O Prof. Jaime Ginzburg abrirá o ciclo, dando uma introdução teórica sobre o problema da representação na era da catástrofe. Abaixo, postei duas entrevistas em que Pasolini fala sobre Salò, Sade, sociedade de consumo, liberdade obrigatória e outras amenidades. Se as traduções estão toscas, têm ao menos o mérito de trazer para o português um pouco mais das provocações desse italiano.

...e isso já é alguma coisa.
O SEXO COMO METÁFORA DO PODER
Do “Corriere della Sera”, 25 de março de 1975

Este filme tem precedentes na sua obra?
Sim. Lembro de Porcile (Pocilga). Lembro também de Orgia, uma peça teatral que dirigi eu mesmo (em Turim, 1968). Eu a tinha concebido em 1963, escrito entre 65 e 68, assim como Porcile, que também era uma peça teatral. Originalmente também Teorema (que saiu em 68) deveria ser uma peça teatral. Sade aparecia através do teatro da “crueldade”, Artaud, e, por mais que pareça estra-nho, também através de Brecht, autor que até aquele momento eu pouco amara, e pelo qual tive um súbito, se não mesmo arrebatador amor naqueles anos que precederam a contestação. Não estou satisfeito nem com Porcile nem com Orgia: o estranhamento e a distância não me atingem, assim como a “crueldade”.

Mas e Salò?
É verdade, Salò será um filme “cruel”, tão cruel que (suponho) terei de me distanciar dele, fingir que não acredito nele e jogar de um modo um pouco assustador... Mas me deixe terminar o discurso sobre os “precedentes”. Em 1970 eu estava no Vale do Loire. Fazia as filmagens para o Decameron. Fui chamado para fazer um debate com os estudantes da Universidade de Tours. Ali trabalha Franco Cagnetta, que me deu para ler um livro sobre Gilles de Rais e os documentos de seu processo, pen-sando que poderia dar um filme. Pensei seriamente nisso por algumas semanas (saiu na Itália nesse tempo uma belíssima biografia de Gilles de Rais, publicada por Ernesto Ferro). Naturalmente, de-pois renunciei. Estava preso à Trilogia della Vita (Trilogia da Vida).

Por quê?
Um filme “cruel” teria sido diretamente político (subversivo e anárquico, naquele momento): since-ro, portanto. Talvez eu tenha sentido, um pouco profeticamente, que a coisa mais sincera em mim, naquele momento, era fazer um filme sobre um sexo cuja alegria fosse uma compensação – como de fato era – da repressão, fenômeno que estava para acabar para sempre. A tolerância, dali a pouco, faria do sexo algo triste e obsessivo. Evoquei, na Trilogia, os fantasmas dos personagens dos meus filmes realistas anteriores. Sem mais denúncia, obviamente, mas com um amor de tal forma violen-to pelo “tempo perdido” que seria uma denúncia, não de qualquer condição em particular, mas de todo o presente (forçosamente permissivo). Agora, estamos naquele presente de modo irreversível: nos adaptamos. A nossa memória é sempre débil. Vivemos o que está acontecendo: a repressão do poder tolerante – que, de todas as repressões, é a mais atroz. Não há mais nada de alegre no sexo. Os jovens são feios ou desesperados, débeis ou reprimidos.

É isso que você quer exprimir em Salò?
Não sei. Isso é o “vivido”. Claro que não posso prescindir disso. É um estado de alma. É o que está nos meus pensamentos e que sofro pessoalmente.Então talvez seja isso que eu queria exprimir em Salò. A relação sexual é uma linguagem (e isso, ao que me parece, ficou claro e explícito em Teo-rema); ora, as linguagens ou sistemas de signos mudam. A linguagem ou sistema de signos do sexo mudou em poucos anos, na Itália, radicalmente. Eu não posso ficar de fora da evolução de alguma convenção lingüística da minha sociedade, e isso inclui a sexual. Hoje, o sexo é a satisfação de uma obrigação social, não um prazer contra as obrigações sociais. Disso deriva um comportamento se-xual radicalmente diferente daquele ao qual eu estava habituado. Para mim, então, o trauma foi (e é) intolerável.

Na prática, no que diz respeito a Salò...
O sexo em Salò é uma representação, ou metáfora, desta situação, que vivemos nestes anos: o sexo como dever e feiúra.

Me parece, no entanto, que você tenha outras intenções – menos interiores, talvez; mais diretas...
Sim, e é a essa que quero chegar. Além da metáfora da relação sexual (obrigatória e feia) que a tole-rância do poder consumista nos faz viver nestes anos, todo o sexo existente em Salò (e existe em enorme quantidade) é também a metáfora da relação do poder com aqueles que lhe estão submeti-dos. Em outras palavras, é a representação (talvez onírica) daquilo que Marx chama de reificação do homem – a redução do corpo a coisa (através do desfrute). Então, o sexo, no meu filme, desenvolve um papel metafórico horrível. O oposto da Trilogia (se, nas sociedades repressivas, o sexo era tam-bém uma transgressão inocente do poder).

Mas os seus 120 dias de Sodoma não se desenvolvem justamente em Salò, em 1944?
Sim, em Salò e em Marzabotto. Peguei como símbolo daquele poder que transforma os indivíduos em objetos (como, por exemplo, nos melhores filmes de Miklés Janksó) o poder fascista, e, concre-tamente, o poder republicano. Mas, justamente, trata-se de um símbolo. Esse poder arcaico me faci-lita a representação. Na realidade, deixo a todo o filme uma ampla margem em branco, que dilata aquele poder arcaico, como símbolo de todos os poderes, e os aborda, na imaginação, de todas as formas possíveis... E então... É isso: o poder é que é anárquico. E, concretamente, o poder nunca foi tão anárquico quanto na República de Salò.

E Sade, como aparece?
Aparece, aparece, porque Sade foi justamente o grande poeta da anarquia do poder.

Como?
No poder – em qualquer poder, legislativo ou executivo – há algo de selvagem. No seu código e na sua práxis, de fato, não se faz outra coisa que não sancionar e atualizar a violência mais cega e pri-mordial dos fortes contra os fracos – ou seja, digamos outra vez, dos que desfrutam contra os que são desfrutados. A anarquia dos desfrutados é desesperada, idílica e, sobretudo, utópica, eternamen-te irrealizada. Enquanto que a anarquia do poder se concretiza com a máxima facilidade, nos artigos do código e na prática. Os poderosos de Sade não fazem outra coisa além de escrever Regulamentos e, regularmente, aplicá-los.

Desculpe se volto à prática, mas, na prática, como tudo isso se realiza no filme?
É simples, mais ou menos como no livro de Sade: quatro poderosos (um duque, um banqueiro, um presidente de tribunal e um bispo), ontológicos e, portanto, arbitrários, “reduzem a coisas” as pobres vítimas. E isso numa espécie de representação sacra que, seguindo o que foi provavelmente a intenção de Sade, tem uma espécie de organização dantesca. Um anteinferno e três círculos. A figura principal (de caráter metonímico) é a acumulação (dos crimes) – mas também a hipérbole (eu queria atingir o limite da suportabilidade).

Quem são os atores que representam os quatro monstros?
Não sei se são monstros. De qualquer modo, nem menos e nem mais do que as vítimas. A escolha dos atores foi feita com a mesma contaminação. Trata-se de Aldo Valletti, um genérico que, em mais de vinte anos de trabalho, nunca teve uma fala; um velho amigo meu das borgate [espécie de favela] romanas (conhecido nos tempos de Accatone!), Giorgio Cataldi; de um escritor, Uberto Paolo Quintavalle; e, finalmente, também de um ator, Paolo Bonacelli.

E quem são as quatro “megeras” narradoras?
São três mulheres belíssimas (a quarta, no meu filme, é a pianista, porque os círculos são apenas três): Helene Surgère, Caterina Boratto e Elsa de’Giorgi. A pianista é Sonia Saviange. As duas atri-zes francesas eu escolhi depois de ter visto, em Veneza, o filme Femmes Femmes, de Vecchiali – belíssimo filme no qual as duas atrizes, para ficar no contexto lingüístico francês, estão “sublimes” (mas de fato).

E as vítimas?
Todos moços e moças não profissionais (pelo menos em parte: as moças foram escolhidas entre modelos fotográficas, porque, naturalmente, deveriam ter corpos belos e, sobretudo, não poderiam ter medo de mostrá-los).

Onde está sendo rodado?
Em Salò (externas), Mantova (internas e externas em que acontecem raptos e rastreamentos polici-ais), em Bolonha e arredores: a cidadezinha ao Reno substituirá a destruída Marzabotto.

Sei que as filmagens começaram há duas semanas. Você pode dizer alguma coisa sobre seu trabalho?
Me desculpe. Não há nada mais sentimental do que um diretor que fala de seu próprio trabalho no set.
SADE E O UNIVERSO DOS CONSUMOS
Entrevista concedida a Gideon Bachmann e realizada em Cavriana (Mantova), em 2 de maio de 1975, durante as filmagens de Salò; publiada em Pier Paolo Pasolini: il cinema in forma di poesia, organizado por L. De Giusti, Cinemazero, Pordenone 1979.

Este filme é uma alegoria? De quê?
Sim, é; mas não é exatamente um apólogo, como era Teorema, por exemplo. Desta vez o sexo tem uma função metafórica, portanto o filme não é uma fábula, mas uma grande metáfora – pelo menos nas minhas intenções. Como eu disse naquela espécie de autocrítica no Corriere della Sera, o sexo é, desta vez, a metáfora do relacionamento entre o poder e quem está submetido ao poder.

Você acha que o que estamos vivendo hoje, a assim chamada liberação sexual, a permissividade, etc., seja também uma forma de reificação das relações humanas?
Você me faz essa pergunta pra me fazer repetir coisas que já disse até a náusea, tanto é que sabe o que te respondo: sim. Ainda assim, te direi mais: tem uma frase que faço um personagem do meu filme dizer, que é “Onde é tudo proibido, quem realmente quiser pode fazer tudo, tem a possibilida-de real de fazer tudo; onde, ao contrário, alguma coisa é permitida, pode-se fazer apenas essa algu-ma coisa”. É o caso da Itália hoje: pode-se fazer alguma coisa. Antes, nada era permitido, na reali-dade; as mulheres eram quase como nos países árabes; o sexo era todo escondido, não se podia falar nele, não se podia sequer mostrar meio seio nu numa revista, lembra? Antes era tudo proibido, ago-ra algo é permitido: fotografias de mulheres nuas, uma grande liberdade nas relações dos casais heterossexuais... Mas é uma liberdade pra inglês ver, porque tem que ser aquela. E é obrigatória: justamente, assim como foi permitida, tornou-se obrigatória.

Fazendo um filme desse gênero você se move em um terreno perigoso, não apenas no sentido de não ser compreendido, mas de ser mal compreendido, não acha?
Não, porque o meu [filme] é um mistério; é o que se chama mistery, o mistério medieval: uma re-presentação sacra e, portanto, muito enigmática. Não deve ser entendida. Certamente há o risco de ser mal entendido ou não entendido, mas isso é intrínseco ao próprio filme.

Que uso você faz, por exemplo, de Klossowski ou de Blanchot, que você cita?
Eu os cito enquanto intérpretes de Sade, fazem parte da consciência que os personagens têm do que estão fazendo. Não dou a eles apenas a consciência que Sade tinha, mas lhes dou também a consci-ência dos intérpretes de Sade. Assim se cria um laço com os nossos dias, e Sade é lido numa chave mais moderna e racional. Se confiasse às personagens apenas a consciência que lhes dava Sade, deixava-os aquém da psicanálise, isto é, aquém do mundo moderno.

Você acha que o poder expresso por poucos, isto é, pelos que o exercitam, como padres, magistra-dos, como os quatro personagens do filme, continuará a ser expresso através dessas estruturas relativamente tradicionais? Ou será que o verdadeiro poder será o consumo?
Para mim o poder continua tal e qual, só que muda de caráter – ou seja, o súdito, em vez de ser mo-derado, religioso, etc., é consumidor, incauto, irreligioso, laico, etc. Mudam os caracteres culturais, mas a relação é idêntica.

Auto-submete-se...
Sempre há os que se auto-submetem; mas antes se auto-submetiam com mais consciência, porque havia, se não outra coisa, ao menos a chamada resignação religiosa, que era uma forma de consci-ência: “baixo a cabeça em nome de Deus” é uma grande frase. Enquanto que, hoje em dia, o con-sumidor não sabe baixar a cabeça, e mais: crê estupidamente que não a baixa, e que tem seus direitos.

Mas também o jovem de esquerda, talvez ainda mais, pensa que não baixa a cabeça, e, no entanto...
Sim, e por quê? Eu estou repetindo há meses: porque também ele é consumidor.

As jovens vítimas no filme não se rebelam?
Um ou outro, assim assim, inconscientemente. Apenas um – e é o ponto culminante do filme – mor-re de punho cerrado. Mas praticamente não fiz vítimas, esses personagens que você menciona. Não suscito piedade através das vítimas, senão de vez em quando, com máxima discrição. Porque o filme ficaria horrível, insuportável: se eu fizesse as vítimas simpáticas, que chorassem e te apertassem o coração, depois de cinco minutos você sairia da sala de cinema. E, acima de tudo, não faço porque não acredito nisso.

O perigo do sexo escatológico, que no cinema nunca foi tratado... Você não tem medo que depois alguém escreva “Pasolini faz sempre essas coisas...”?
Bem, mas desta vez a coisa vai de tal modo além dos limites que, forçosamente, essas coisas velhas que dizem de mim terão de ser ditas com outros termos, porque vai demais além dos limites.

Eu estava pensando que, para Freud, o produto digestivo sempre teve significados muito amplos. E não é que você pensou nisso?
Tem também isso: sabe, num mistério tudo se condensa. Mas tem, acima de tudo, o pensamento de que, na realidade, os produtores obrigam os consumidores a comer merda: o caldo Knorr, ou os biscoitos Saiwa, são merda. Isso, no filme, não aparecerá, porque é um mistério. Mas é claro que eu, enquanto estou rodando, penso nisso – e não sei se isso se exteriorizará ou não. Se eu fizesse um filme sobre um industrial milanês que produz biscoitos, e depois faz a propaganda deles, e depois faz com que os consumidores os comam, poderia fazer um filme terrível – sobre a poluição, sobre a sofisticação, etc. Mas eu não posso ficar ali representando um industrial milanês, pensando-o por talvez um ano e depois filmá-lo. Me entediaria, eu o detesto.

E, depois, a metáfora é provavelmente mais útil, basta que seja compreendida.
Mah! Não será muito compreendida. Seria mais útil – no sentido direto, prático, da palavra – fazer assim como é. Mas quem me fará fazê-lo? Seria uma ofensa contra mim mesmo: um filme realista, nesse sentido, não posso fazer... porque não posso fazê-lo, mesmo fisicamente.

Accatone não era realista?
Não, porque representava uma classe social na realidade arcaica, assim como o mundo subproletá-rio era extremamente atrasado comparado à burguesia, era um mundo arcaico. Para mim, fazer Ac-catone foi como retroceder um século, mesmo que esse século fosse contemporâneo.

Você ainda o aceita?
Aceito, mas a denúncia social desapareceu completamente, desapareceu objetivamente porque a-quele mundo das borgate romanas não existe mais: aquelas falas, aquele modo de falar, aquele mo-do de ser, desapareceram. Então, que coisa acuso, o que denuncio? De Accatone desapareceu toda a parte social, toda a denúncia, e ficou só a tragédia. O filme ficou mais bonito, para mim.

E a parte do sonho de Accatone, que parecia indicar uma sua idéia formal que você depois não levou adiante?
Continua válida, mas no interior de uma tragédia fora do tempo.

E agora vai fazer esse filme sobre São Paulo?
Não, farei outro com Eduardo, que se chamará Il Cinema ou Ta Kai Ta, que quer dizer “isto e aqui-lo”, em grego – é um grego citado por São Paulo. Ou o entitularei Circenses, não sei, ou talvez Dromenon Legomeron, que é outro dos títulos possíveis: escolherei.