domingo, 25 de novembro de 2007

Como proponho no texto "O gozo do ateu", acredito que o ponto de partida do ateísmo de Sade é o desamparo humano. Ninguém nasce livre; o homem, lançado ao mundo como qualquer outro animal, está "acorrentado à natureza", sujeitando-se como um "escravo" às suas leis; "hoje homem, amanhã verme, depois de amanhã mosca" – tal é a condenação que paira sobre a "infeliz humanidade". Ciente de que as religiões nascem desse triste destino, o devasso sadiano prefere admiti-lo sem escapatórias, procurando superar esse desamparo primordial pela via do erotismo. A volúpia, ensina o libertino, é o único modo que a natureza oferece para atenuar o sofrimento humano.

(ler mais)

domingo, 18 de novembro de 2007

DA VELHICE


"Quanto mais se vive maior é a chance de morrer."


(de um médico, aqui)



"Viver é muito perigoso."


(de um outro médico, em outro lugar)

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

TRUE MASCULINITY IS IMPOSSIBLE WITHOUT A SUBSTANTIAL VOLUME OF MALE MEAT


...


"



Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vêm sofomanias, adornos
Impudência, pejo. E agora digo que há um pássaro
Voando sobre o Tejo. Por que não posso
Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em nós que se fará disforme?



"

(Hilda Hilst, Do Desejo)

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

BENDITO FRUTO



...


"O que Matilde estará fazendo hoje? Será que chorou? Eis a primeira pergunta que Paris se coloca já há dez meses. Deve possuir um singular poder aquele que consegue deixar como que em suspenso uma cidade que em geral não se espanta com nada, que não se comove com o escândalo, que esquece glórias e vergonhas, e não reconhece mais amanhã o grande herói de hoje... Para a geração moderna, o folhetim do sr. Eugène Sue está como a charada ou o enigma do Mercure para os leitores do século XVIII. Trata-se de saber o que farão no próximo capítulo Gontran ou Lugarto. Eis a grande questão do século XIX e não mais o to be or not to be do Hamlet."


Téophile Gautier, citado por Marlise Meyer em Folhetim: uma história (SP: Companhia das Letras, 1996. p. 72)

domingo, 4 de novembro de 2007


Revenge of the goldfish, Sandy Skoglund

...

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

DO AMOR (em tempos de spam, alegria e portas contidas)



Never resign to possessing a short penis... Make it longer!
Forget about failures in bedroom. With you new bigger dic'k you're doomed to success!
Become a tireless lover with your new big and hard dic'k
Have you ever felt a kiss of a womb? With your new big rob you'll feel it!
Make sure you wont be ashame when you slap her in da face with your dick!
Voluptuous hotties, fresh adorable girls, horny moms - all love big diks!



domingo, 30 de setembro de 2007

DO AMOR

Auto-retrato com Juan, de Keith Haring


"Abri o meu jeans e mostrei pra ele o que eu realmente estava sentindo."

(in http://mixbrasil.uol.com.br/mp/upload/noticia/9_80_62964.shtml)

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

"Eu penso, em primeiro lugar, que não se deve nunca temer, em caso algum, a instrumentalização por parte do poder e da sua cultura. É preciso comportar-se como se esta eventualidade perigosa não existisse. O que conta é, acima de tudo, a sinceridade e a necessidade daquilo que se deve dizer. Não é preciso traí-la de nenhuma maneira, e muito menos calando diplomaticamente por 'parti pris'.

Mas penso também que, depois, é preciso saber dar-se conta de quando se foi intrumentalizado, eventualmente, pelo poder integrante. E então, se a própria sinceridade ou necessidade foram subjugadas ou manipuladas, penso que se deve ter mesmo a coragem de abjurá-lo."

(Pier Paolo Pasolini, "Abjurei a 'Trilogia da Vida'", in Últimos Escritos. Coimbra: Fora do Texto, 1995)

terça-feira, 11 de setembro de 2007

DA RECUSA


"Fazer a crítica é tornar difíceis os gestos fáceis demais"

(Michel Foucault)


***




"

PRIMEIRO: a luta progressista pela democratização expressiva e pela liberalização sexual foi brutalmente superada e desvanecida pela decisão do poder consumista de conceder uma tão vasta quanto falsa tolerância.

SEGUNDO: mesmo a 'realidade' dos corpos inocentes foi violada, manipulada, subjugada pelo poder consumista: mais, tal violência sobre os corpos tornou-se o dado mais macroscópico da nova época humana.

TERCEIRO: as vidas sexuais privadas (como a minha) sofreram o trauma quer da falsa tolerância quer da degradação corpórea, e aquilo que nas fantasias sexuais era dor e alegria, tornou-se desilusão suicida, informe acídia.

"

(Pier Paolo Pasolini, "Abjurei a 'Trilogia da Vida'", in Últimos Escritos. Coimbra: Fora do Texto, 1995)

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

AFROBRASILEIRAS (IIb)


"o que aquelas mulheres teriam a dizer sobre Clarice e seu grupo?"





...

Anotações da palestra "Relações raciais na literatura brasileira", proferida pela Profa. Dra. Regina Dalcastagnè (UnB) no evento "Literatura e Conflitos Sociais", realizado na Faculdade de Letras da USP no último 16 de agosto.

(link para a pesquisa: http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=2398)


- Bakhtin: "o escritor é aquele que fala no lugar de um outro"

- o silêncio dos marginalizados é coberto pelas vozes que se soprepõem a eles, e às vezes quebrado por uma voz marginalizada que se sobressai

(representação, representatividade)

- as representações da literatura não dão conta da representatividade dos diversos grupos raciais

- literatura brasileira de hoje: "a classe média olhando para a classe média"

- "a boa vontade daquele que vê o outro não substitui a necessidade da voz do outro"

- na pesquisa, entre 200 e tantos autores, apenas 4 não-brancos

- a população idosa quase não aparece nesses romances também

- os brancos são protagonistas e narradores, os negros não têm voz. Somente 5 narradores negros, apenas 1 deles é mulher.

- as histórias se passam predominantemente no universo privado: não há universo do trabalho, nem futebol, carnaval ou televisão nesses romances. (Negros, quando aparecem, eles sim estão ligados ao universo do trabalho)

- brancxs: homens são escritores, mulheres são donas-de-casa; negrxs: homens são bandidos, mulheres são empregadas domésticas e prostitutas

- relações entre negros e brancos: violência (do negro para com o branco)

- o racismo não é tema da literatura contemporânea

domingo, 2 de setembro de 2007

Falas com arcanjos enquanto cagas.

Caio Fernando Abreu, "Dodecaedro", in Triângulo das águas

sábado, 1 de setembro de 2007

palavras
correndo:

o tempo suspenso

por ganchos de açougue
sorvendo lento
mergulho no
sangue.

orgulho no
blog.

a pele plástica das palavras
conserva-se melhor na
leitura afiada, dedicada, despojada...

ou rápida.

tanto faz.

pois na passagem (qualquer que seja) dos olhares
aquilo que o texto nunca teve,
ele já não tem mais.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Há eventos de natureza tão delicada, que faríamos bem em soterrá-los e torná-los irreconhecíveis através de uma grosseria; existem atos de amor e extravagante grandeza, após os quais é aconselhável tomar de um bastão e surrar a testemunha, para lhe turvar a lembrança.

Friedrich Nietzsche, Além do bem e do mal, fragmento 40. Tradução de Paulo César de Souza

terça-feira, 21 de agosto de 2007

AFROBRASILEIRAS (II)

(um texto praticamente desconhecido de Clarice Lispector.)


ÁFRICA


Vilas de Tallah, Kebbe e Sasstown, dentro da Libéria, com a jornalista Anna Kipper, os Capitães Crockett e Bill Young. Os missionários ainda não tinham posto pé ali. Alguns dos habitantes haviam trabalhado na base aérea, falavam alguma coisa de inglês como se fosse mais um dialeto local (só na Monróvia há 24 ou 25 dialetos). No meio da conversa interrompem-se, dizem com cuidado e prazer: hellô - prestam atenção à ressonância do que disseram, riem então, e continuam. Adoram dar adeus. São de um preto fosco e unido que parece repelir água, como o cisne que nunca está molhado. Alguns meninos com umbigo do tamanho de uma laranja. Uma de nós é muito examinada por um negro jovem e, sem saber o que fazer, termina por lhe dar adeus. O rapaz fica encantado e, com aplicação, numa delicadeza de oferenda, faz gestos obscenos. As negras jovens pintam o rosto com traços ocre, e o lábio inferior com uma tinta cor de gangrena e azinhavre. Uma, a quem agrado o filho, diz: baby nice, baby cry money - sua voz é tão cantante que parece encher de água uma bilha. O Capitão Young dá-lhe um níquel. Baby cry big money, reclama ela, entornando a bilha com sua voz de risos. Eles riem muito, mesmo os de rosto melancólico; não há um traço de escárnio ou vontade de poder no riso; o riso é uma mistura de fascinação, humildade, curiosidade e alegria. Uma delas me olha atentamente. E muito de súbito brota em frase longuíssima, arenga sem raiva onde não reconheço um só r ou s, apenas variações na escala do l, vaivém de lengalenga. Recorro ao intérprete. Ele resume curtíssimo: she likes you. A moça então explode em outra lengalenga que dessa vez enche várias bilhas com chuva cantante. O intérprete: meu lenço de cabeça. Tiro-o, mostro-lhe como usá-lo. Quando vejo, estou cercada de pretas moças e esgalhadas, seminuas, todas muito sérias e quietas. Nenhuma presta atenção ao que ensino, e vou ficando sem jeito, assim rodeada de corças negras. Nos rostos opacos as listras pintadas me olham. A doçura contagia: também me aquieto. Uma delas então se adianta no seu pé leve, e como se cumprisse um ritual - eles se dão inteiramente à forma - pega nos meus cabelos, alisa-os, experimenta-os, concentrada. Todas assistem. Não me mexo, para não assustá-las. Quando ela acaba, há ainda um momento de silêncio. E eis que de repente tantos risos misturados e tantos espantos alegres como se o silêncio tivesse debandado.

(em Para não esquecer: crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. pp. 22-23)

domingo, 19 de agosto de 2007



(foto de Claudia Andujar)


...


1

taba de cobre e concreto:

arqui
tetura
crua


2

luz
esculpida
no escuro


3

você
memória
que eu não tenho

hiato
not
tupi

ego
endé-
mico

sábado, 18 de agosto de 2007

AFROBRASILEIRAS (I)



"

Falar negramente
nem claro
nem negligente

Tornar negro
sem ficar claro
sem clarear a mente

Falar negramente
nem que para isso
eu fale naturalmente

Banir da língua negra
a palavra racista
que alguém implantou
no vocabulário pobre, branco, manco
que o negro invejou

"

(Esmeralda Ribeiro, in Cadernos Negros no. 9)

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Mas o que se passou só pode ser contado por palavras que ainda não nasceram.

Mia Couto, O último voo do flamingo

sexta-feira, 27 de julho de 2007

terça-feira, 24 de julho de 2007

A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS


quarta-feira, 18 de julho de 2007



Mira Schendel, "Sem Título (Objeto Gráfico)". 1967.

domingo, 15 de julho de 2007

A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS


Sem título. Mira Schendel, 1973


"Uma das linhas de pensamento adotadas [por Wittgenstein] consiste em pensar a dor a partir de sua inserção na vida privada. Se eu tenho uma dor, e manifesto ao outro, posso ter a expectativa de que ele compreenda o que se passa em meu interior. A palavra 'dor' cumpriria um papel conector, permitindo que o outro reconhecesse o que se passa dentro de mim. No entanto, explica Wittgenstein, a palavra 'dor' não equivale a um grito. Ao gritar, manifestamos uma sensação, a partir de uma vivência imediata. Usar a palavra 'dor' consiste em tentar substituir a manifestação imediata por uma referência abstrata."

Jaime Ginzburg, "Dor e linguagem: em torno de Wittgenstein"

sexta-feira, 13 de julho de 2007

A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS


Me caiu um livro nas mãos. Na verdade, elas é que buscaram o livro. Na verdade, elas não estavam exatamente buscando-o. Toparam com ele - embora já soubessem anteriormente que ele existia.

Às vezes não há como fugir à impressão de que as coisas se ordenam por alguma simetria cósmica.

Luiz Roberto Salinas Fortes foi professor da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, que é onde eu estudo. Faço Letras, na verdade, mas a Faculdade é a mesma. Ele publicou um livro chamado Rousseau: da teoria à prática (Ática, 1976) e um outro chamado O Iluminismo e os Reis Filósofosos (Brasiliense, 1987), mas não foi nenhum desses dois que chegou até mim. Foi um outro.



Retrato calado (Marco Zero, 1988) é o testemunho de Salinas sobre a sua relação forçada com a polícia durante a ditadura militar nos anos 70. É o relato de um intelectual filhinho-de-papai e bunda-mole (nas palavras do próprio autor) que se viu às voltas com a bestialidade politizada de um pau-de-arara.


Pois não é que o referido instrumento, além da sua eficácia demonstrativa, teria também algo a ver - de um ponto de vista, digamos, ontológico formal - com um instrumento musical? Pensar o pau-de-arara não seria, então, a mesma coisa que investigar a origem das línguas?...


Salinas morreu em 4 de agosto de 1987. Eis que, vinte anos depois, eu (que não tenho muito mais que vinte anos) inadvertidamente o encontro sozinho numa prateleira de biblioteca, como se o encontro fosse premeditado, e leio suas linhas titubeantes, que gorfeiam erudição na tentativa absurda que é não apenas dizer o pau-de-arara - mas pensá-lo.

À memória do Salinas, então, que eu não conheci, mas que viveu a sigularidade da tortura indiferente e que sobreviveu para pensá-la, ficam os próximos posts.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

VELHOS



eu não entendo o que eles falam. os rostos praticamente sem expressão, embora abarrotados de linhas de expressão, de sulcos, rugas, a cabeça um caroço de ameixa. as falas, no entanto, não parecem débeis: vozes firmes e vivas, mesmo com pausas recorrentes. em bando eles se reúnem na calçada, conversam, escarram. vão chegando vagarosos e determinados com seus banquinhos desmontáveis, formam um círculo. agora são quase dez. crianças correm, eles acompanham com o olhar, eles sentados, conversando.




Velhos. Dir. Lina Yang. China, 1996.
http://www.frif.com/new2000/old.html

sábado, 7 de julho de 2007

O ARQUITETO DESSAS ARMADILHAS




Certa vez minha alma elevou-se e vi Deus imerso numa claridade e numa plenitude jamais vista por mim de forma tão intensa e plena. E ali não havia nem sombra de amor.

Santa Ângela de Foligno, séc. XIII

sábado, 23 de junho de 2007

Notas dispersas



Democracia se faz
na pele e na
palavra.


Viver em sociedade exige muito mais do que parece. Exige mais do que a gente está disposta a oferecer.


...


"...o princípio de que a potencialização da palavra é exigência concreta das práticas escolares lastreadas por uma perspectiva inclusiva conseqüente - o que implica um compromisso narrativo dos responsáveis pela educação formal com, de um lado, o legado humano e, de outro, as novas gerações, intermediado pelo modo de vida democrático."

(http://www.anped.org.br/reunioes/27/diversos/se_julio_groppa_aquino.pdf)


...


"Tradição" não no sentido rasteiro do termo. Comunhão.



(e por falar nisso:)

"Com quantos quilos de medo se faz uma tradição?"

(do Tom Zé, pichado nos tapumes que cercam a reitoria da USP)


(Walter Benjamin, apreensivo: "E o inimigo não tem cessado de vencer")

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Parada para Manoel de Barros

(talvez a gente devesse aproveitar a Parada para
parar.)

...



...

"

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Neste ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não
aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.


"

(Manoel de Barros)

quarta-feira, 25 de abril de 2007

na praça da sé às quatro da tarde faz
muito barulho: carros, ônibus,
policiais, mesmo
o ruído dos passos se torna ensurdecedor
(o suspiro em multidão
tende a tornar-se furacão)
o pregador se
exalta, cospe gritos pela
praça -
Deus não diz uma palavra.

tenta, até, mas
é tanto o turbilhão de
grunhidos, de
sons sem comunhão, que
Ele se frustra, se
recolhe.

Sua voz ninguém
escuta. dêem a Deus
uma pastilha!
para que possa rugir e fazer temer simplesmente ao dizer:
"EU SOU".

não adiantaria. o pregador
está exaltado hoje, sente
na sua voz florescer a própria vontade
divina.
Deus se cala e se retira.
implode em pensamento. anseia
por um momento em que
encontrasse ouvido atento
que escutasse o Seu lamento,
Seu impasse:

Por que me abandonaste?

sábado, 24 de março de 2007

amar
o corpo em
trauma tocá-lo
mutilado

sentir
em cada
dobra a dor
que já
passou

- não.
não a dor.
sentir gozo a partir do corpo
outro

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Hiroshima, Mon Amour

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Quem deseja e não age engendra a peste.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

"pois a masculinidade não é um dado, mas um projeto perseguido ao longo de muitos anos"

(da dissertação de mestrado do Lula Ramires)

do flog do menino da vaca

arquivo do blog