quarta-feira, 7 de maio de 2008

FASCISMO E COTIDIANO

ROMA

"Depois de quinze longos anos sob várias administrações públicas de partidos de esquerda que mais praticavam filosofia que administração e que faziam de seus contribuintes/munícipes meros patrocinadores de um exaustivo e nada prático programa 'politicamente correto' (o que por pouco não acabou de vez com o turismo local), o povo de Roma, sem medo de ser feliz, acaba de eleger Gianni Alemanno, cujo discurso de campanha o tempo todo jamais cedeu à tentação fácil de mentir sobre o que ele é, sobre o que pensa e ainda o que fará à frente de uma prefeitura como a de Roma.

Roma, que infelizmente está infestada de travestis e mendigos, viciados e prostitutas, suja e cheirando mal, dacadente mesmo, finalmente terá uma chance de renascer fora da poesia utópica que quase a faliu. Que sirva de inspiração aos paulistanos na próxima eleição."

Paulo Boccato (São Carlos, SP)

(publicado no Painel do Leitor, da Folha de São Paulo. Domingo, 4 de maio de 2008)


Mamma Roma (Itália. Dir. Pasolini, 1962)


ROMA

O Sr. Paulo Boccato, no Painel do Leitor do último domingo, ao saudar a eleição do novo prefeito de Roma, escreve que este poderá "finalmente" melhorar a capital italiana, que segundo o Sr. Boccato "infelizmente está infestada de travestis e mendigos, viciados e prostitutas, suja e cheirando mal, decadente mesmo". O leitor (que é de São Carlos) termina o comentário fazendo um chamado aos paulistanos: façam como os romanos.

São Paulo, certamente, também está "infestada" por essa escória - e definitivamente não cheira bem, digam-no as marginais. Portanto, apesar de mendigos, travestis, viciados e prostitutas serem, no final das contas, seres humanos que, como eu e você, vivem vidas específicas dentro de situações que não controlam completamente, talvez seja interessante destituí-los do pouco e incerto espaço que ocupam na cidade e tratá-los como sub-humanos, como gafanhotos que infestam e enfeiam a nossa bela São Paulo. Ocorre-me que a mesma Roma exaltada pelo Sr. Boccato já definiu, nos anos 1930, políticas públicas para o bem-estar comum que passavam por essa dedetização social e que nunca foram propriamente copiadas no Brasil. Copiemo-las, como escreve Boccato, "sem medo de ser feliz". Pela nossa felicidade, façamos como os romanos. Façamos.

(enviada por mim ao mesmo Painel na terça, 06 de maio)