sexta-feira, 27 de julho de 2007
terça-feira, 24 de julho de 2007
quarta-feira, 18 de julho de 2007
domingo, 15 de julho de 2007
A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS

"Uma das linhas de pensamento adotadas [por Wittgenstein] consiste em pensar a dor a partir de sua inserção na vida privada. Se eu tenho uma dor, e manifesto ao outro, posso ter a expectativa de que ele compreenda o que se passa em meu interior. A palavra 'dor' cumpriria um papel conector, permitindo que o outro reconhecesse o que se passa dentro de mim. No entanto, explica Wittgenstein, a palavra 'dor' não equivale a um grito. Ao gritar, manifestamos uma sensação, a partir de uma vivência imediata. Usar a palavra 'dor' consiste em tentar substituir a manifestação imediata por uma referência abstrata."
Jaime Ginzburg, "Dor e linguagem: em torno de Wittgenstein"

"Uma das linhas de pensamento adotadas [por Wittgenstein] consiste em pensar a dor a partir de sua inserção na vida privada. Se eu tenho uma dor, e manifesto ao outro, posso ter a expectativa de que ele compreenda o que se passa em meu interior. A palavra 'dor' cumpriria um papel conector, permitindo que o outro reconhecesse o que se passa dentro de mim. No entanto, explica Wittgenstein, a palavra 'dor' não equivale a um grito. Ao gritar, manifestamos uma sensação, a partir de uma vivência imediata. Usar a palavra 'dor' consiste em tentar substituir a manifestação imediata por uma referência abstrata."
Jaime Ginzburg, "Dor e linguagem: em torno de Wittgenstein"
sexta-feira, 13 de julho de 2007
A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS
Me caiu um livro nas mãos. Na verdade, elas é que buscaram o livro. Na verdade, elas não estavam exatamente buscando-o. Toparam com ele - embora já soubessem anteriormente que ele existia.
Às vezes não há como fugir à impressão de que as coisas se ordenam por alguma simetria cósmica.
Luiz Roberto Salinas Fortes foi professor da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, que é onde eu estudo. Faço Letras, na verdade, mas a Faculdade é a mesma. Ele publicou um livro chamado Rousseau: da teoria à prática (Ática, 1976) e um outro chamado O Iluminismo e os Reis Filósofosos (Brasiliense, 1987), mas não foi nenhum desses dois que chegou até mim. Foi um outro.

Retrato calado (Marco Zero, 1988) é o testemunho de Salinas sobre a sua relação forçada com a polícia durante a ditadura militar nos anos 70. É o relato de um intelectual filhinho-de-papai e bunda-mole (nas palavras do próprio autor) que se viu às voltas com a bestialidade politizada de um pau-de-arara.
Pois não é que o referido instrumento, além da sua eficácia demonstrativa, teria também algo a ver - de um ponto de vista, digamos, ontológico formal - com um instrumento musical? Pensar o pau-de-arara não seria, então, a mesma coisa que investigar a origem das línguas?...
Salinas morreu em 4 de agosto de 1987. Eis que, vinte anos depois, eu (que não tenho muito mais que vinte anos) inadvertidamente o encontro sozinho numa prateleira de biblioteca, como se o encontro fosse premeditado, e leio suas linhas titubeantes, que gorfeiam erudição na tentativa absurda que é não apenas dizer o pau-de-arara - mas pensá-lo.
À memória do Salinas, então, que eu não conheci, mas que viveu a sigularidade da tortura indiferente e que sobreviveu para pensá-la, ficam os próximos posts.
Me caiu um livro nas mãos. Na verdade, elas é que buscaram o livro. Na verdade, elas não estavam exatamente buscando-o. Toparam com ele - embora já soubessem anteriormente que ele existia.
Às vezes não há como fugir à impressão de que as coisas se ordenam por alguma simetria cósmica.
Luiz Roberto Salinas Fortes foi professor da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, que é onde eu estudo. Faço Letras, na verdade, mas a Faculdade é a mesma. Ele publicou um livro chamado Rousseau: da teoria à prática (Ática, 1976) e um outro chamado O Iluminismo e os Reis Filósofosos (Brasiliense, 1987), mas não foi nenhum desses dois que chegou até mim. Foi um outro.

Retrato calado (Marco Zero, 1988) é o testemunho de Salinas sobre a sua relação forçada com a polícia durante a ditadura militar nos anos 70. É o relato de um intelectual filhinho-de-papai e bunda-mole (nas palavras do próprio autor) que se viu às voltas com a bestialidade politizada de um pau-de-arara.
Pois não é que o referido instrumento, além da sua eficácia demonstrativa, teria também algo a ver - de um ponto de vista, digamos, ontológico formal - com um instrumento musical? Pensar o pau-de-arara não seria, então, a mesma coisa que investigar a origem das línguas?...
Salinas morreu em 4 de agosto de 1987. Eis que, vinte anos depois, eu (que não tenho muito mais que vinte anos) inadvertidamente o encontro sozinho numa prateleira de biblioteca, como se o encontro fosse premeditado, e leio suas linhas titubeantes, que gorfeiam erudição na tentativa absurda que é não apenas dizer o pau-de-arara - mas pensá-lo.
À memória do Salinas, então, que eu não conheci, mas que viveu a sigularidade da tortura indiferente e que sobreviveu para pensá-la, ficam os próximos posts.
segunda-feira, 9 de julho de 2007
VELHOS

eu não entendo o que eles falam. os rostos praticamente sem expressão, embora abarrotados de linhas de expressão, de sulcos, rugas, a cabeça um caroço de ameixa. as falas, no entanto, não parecem débeis: vozes firmes e vivas, mesmo com pausas recorrentes. em bando eles se reúnem na calçada, conversam, escarram. vão chegando vagarosos e determinados com seus banquinhos desmontáveis, formam um círculo. agora são quase dez. crianças correm, eles acompanham com o olhar, eles sentados, conversando.

Velhos. Dir. Lina Yang. China, 1996.
http://www.frif.com/new2000/old.html
eu não entendo o que eles falam. os rostos praticamente sem expressão, embora abarrotados de linhas de expressão, de sulcos, rugas, a cabeça um caroço de ameixa. as falas, no entanto, não parecem débeis: vozes firmes e vivas, mesmo com pausas recorrentes. em bando eles se reúnem na calçada, conversam, escarram. vão chegando vagarosos e determinados com seus banquinhos desmontáveis, formam um círculo. agora são quase dez. crianças correm, eles acompanham com o olhar, eles sentados, conversando.
Velhos. Dir. Lina Yang. China, 1996.
http://www.frif.com/new2000/old.html
sábado, 7 de julho de 2007
sábado, 23 de junho de 2007
Notas dispersas
Democracia se faz
na pele e na
palavra.
Viver em sociedade exige muito mais do que parece. Exige mais do que a gente está disposta a oferecer.
...
"...o princípio de que a potencialização da palavra é exigência concreta das práticas escolares lastreadas por uma perspectiva inclusiva conseqüente - o que implica um compromisso narrativo dos responsáveis pela educação formal com, de um lado, o legado humano e, de outro, as novas gerações, intermediado pelo modo de vida democrático."
(http://www.anped.org.br/reunioes/27/diversos/se_julio_groppa_aquino.pdf)
...
"Tradição" não no sentido rasteiro do termo. Comunhão.
(e por falar nisso:)
"Com quantos quilos de medo se faz uma tradição?"
(do Tom Zé, pichado nos tapumes que cercam a reitoria da USP)
(Walter Benjamin, apreensivo: "E o inimigo não tem cessado de vencer")
Democracia se faz
na pele e na
palavra.
Viver em sociedade exige muito mais do que parece. Exige mais do que a gente está disposta a oferecer.
...
"...o princípio de que a potencialização da palavra é exigência concreta das práticas escolares lastreadas por uma perspectiva inclusiva conseqüente - o que implica um compromisso narrativo dos responsáveis pela educação formal com, de um lado, o legado humano e, de outro, as novas gerações, intermediado pelo modo de vida democrático."
(http://www.anped.org.br/reunioes/27/diversos/se_julio_groppa_aquino.pdf)
...
"Tradição" não no sentido rasteiro do termo. Comunhão.
(e por falar nisso:)
"Com quantos quilos de medo se faz uma tradição?"
(do Tom Zé, pichado nos tapumes que cercam a reitoria da USP)
(Walter Benjamin, apreensivo: "E o inimigo não tem cessado de vencer")
sexta-feira, 15 de junho de 2007
Parada para Manoel de Barros
(talvez a gente devesse aproveitar a Parada para
parar.)
...

...
"
A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Neste ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não
aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
"
(Manoel de Barros)
(talvez a gente devesse aproveitar a Parada para
parar.)
...

...
"
A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Neste ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não
aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
"
(Manoel de Barros)
quarta-feira, 25 de abril de 2007
na praça da sé às quatro da tarde faz
muito barulho: carros, ônibus,
policiais, mesmo
o ruído dos passos se torna ensurdecedor
(o suspiro em multidão
tende a tornar-se furacão)
o pregador se
exalta, cospe gritos pela
praça -
Deus não diz uma palavra.
tenta, até, mas
é tanto o turbilhão de
grunhidos, de
sons sem comunhão, que
Ele se frustra, se
recolhe.
Sua voz ninguém
escuta. dêem a Deus
uma pastilha!
para que possa rugir e fazer temer simplesmente ao dizer:
"EU SOU".
não adiantaria. o pregador
está exaltado hoje, sente
na sua voz florescer a própria vontade
divina.
Deus se cala e se retira.
implode em pensamento. anseia
por um momento em que
encontrasse ouvido atento
que escutasse o Seu lamento,
Seu impasse:
Por que me abandonaste?
muito barulho: carros, ônibus,
policiais, mesmo
o ruído dos passos se torna ensurdecedor
(o suspiro em multidão
tende a tornar-se furacão)
o pregador se
exalta, cospe gritos pela
praça -
Deus não diz uma palavra.
tenta, até, mas
é tanto o turbilhão de
grunhidos, de
sons sem comunhão, que
Ele se frustra, se
recolhe.
Sua voz ninguém
escuta. dêem a Deus
uma pastilha!
para que possa rugir e fazer temer simplesmente ao dizer:
"EU SOU".
não adiantaria. o pregador
está exaltado hoje, sente
na sua voz florescer a própria vontade
divina.
Deus se cala e se retira.
implode em pensamento. anseia
por um momento em que
encontrasse ouvido atento
que escutasse o Seu lamento,
Seu impasse:
Por que me abandonaste?
sábado, 24 de março de 2007
terça-feira, 27 de fevereiro de 2007
sábado, 17 de fevereiro de 2007
domingo, 17 de dezembro de 2006
A LINGUAGEM É UM PROBLEMA PRA VOCÊ?
"(...) mas a experiência e a prática da comunicação, ao longo das idades, têm vindo a demonstrar que a síntese não passa duma ilusão, é assim, salvo seja, como uma invalidez da linguagem, não é querer dizer amor e não chegar a língua, é ter língua e não chegar ao amor."
(José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo)

"(...) mas a experiência e a prática da comunicação, ao longo das idades, têm vindo a demonstrar que a síntese não passa duma ilusão, é assim, salvo seja, como uma invalidez da linguagem, não é querer dizer amor e não chegar a língua, é ter língua e não chegar ao amor."
(José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006
quarta-feira, 6 de dezembro de 2006
Enquanto teu sono não for digno do despertar, não durmas!
epígrafe do livro de Atiq Rahimi, As mil casas do sonho e do terror, editado pela Estação Liberdade em 2003
epígrafe do livro de Atiq Rahimi, As mil casas do sonho e do terror, editado pela Estação Liberdade em 2003
terça-feira, 28 de novembro de 2006
The last afternoon that my father lived, though with no premonition, I preferred to be with him, and invented an absence for mother, Vinnie being asleep. He seemed peculiarly pleased, as I oftenest stayed with myself; and remarked, as the afternoon withdrew, he "would like it to not end."
His pleasure almost embarrassed me, and my brother coming, I suggested they walk. Next morning I woke him for the train, and saw him no more.
His heart was pure and terrible, and I think no other like it exists.
I am glad there is immortality, but would have tested it myself, before entrusting him. Mr. Bowles was with us. With that exception, I saw none. I have wished for you, since my father died, and had you an hour unengrossed, it would be almost priceless. Thank you for each kindness...
(carta de E. Dickinson a T. Higginson)
His pleasure almost embarrassed me, and my brother coming, I suggested they walk. Next morning I woke him for the train, and saw him no more.
His heart was pure and terrible, and I think no other like it exists.
I am glad there is immortality, but would have tested it myself, before entrusting him. Mr. Bowles was with us. With that exception, I saw none. I have wished for you, since my father died, and had you an hour unengrossed, it would be almost priceless. Thank you for each kindness...
(carta de E. Dickinson a T. Higginson)
segunda-feira, 27 de novembro de 2006
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