sexta-feira, 13 de julho de 2007

A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS


Me caiu um livro nas mãos. Na verdade, elas é que buscaram o livro. Na verdade, elas não estavam exatamente buscando-o. Toparam com ele - embora já soubessem anteriormente que ele existia.

Às vezes não há como fugir à impressão de que as coisas se ordenam por alguma simetria cósmica.

Luiz Roberto Salinas Fortes foi professor da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, que é onde eu estudo. Faço Letras, na verdade, mas a Faculdade é a mesma. Ele publicou um livro chamado Rousseau: da teoria à prática (Ática, 1976) e um outro chamado O Iluminismo e os Reis Filósofosos (Brasiliense, 1987), mas não foi nenhum desses dois que chegou até mim. Foi um outro.



Retrato calado (Marco Zero, 1988) é o testemunho de Salinas sobre a sua relação forçada com a polícia durante a ditadura militar nos anos 70. É o relato de um intelectual filhinho-de-papai e bunda-mole (nas palavras do próprio autor) que se viu às voltas com a bestialidade politizada de um pau-de-arara.


Pois não é que o referido instrumento, além da sua eficácia demonstrativa, teria também algo a ver - de um ponto de vista, digamos, ontológico formal - com um instrumento musical? Pensar o pau-de-arara não seria, então, a mesma coisa que investigar a origem das línguas?...


Salinas morreu em 4 de agosto de 1987. Eis que, vinte anos depois, eu (que não tenho muito mais que vinte anos) inadvertidamente o encontro sozinho numa prateleira de biblioteca, como se o encontro fosse premeditado, e leio suas linhas titubeantes, que gorfeiam erudição na tentativa absurda que é não apenas dizer o pau-de-arara - mas pensá-lo.

À memória do Salinas, então, que eu não conheci, mas que viveu a sigularidade da tortura indiferente e que sobreviveu para pensá-la, ficam os próximos posts.

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