AFROBRASILEIRAS (II)(um texto praticamente desconhecido de Clarice Lispector.)
ÁFRICAVilas de Tallah, Kebbe e Sasstown, dentro da Libéria, com a jornalista Anna Kipper, os Capitães Crockett e Bill Young. Os missionários ainda não tinham posto pé ali. Alguns dos habitantes haviam trabalhado na base aérea, falavam alguma coisa de inglês como se fosse mais um dialeto local (só na Monróvia há 24 ou 25 dialetos). No meio da conversa interrompem-se, dizem com cuidado e prazer:
hellô - prestam atenção à ressonância do que disseram, riem então, e continuam. Adoram dar adeus. São de um preto fosco e unido que parece repelir água, como o cisne que nunca está molhado. Alguns meninos com umbigo do tamanho de uma laranja. Uma de nós é muito examinada por um negro jovem e, sem saber o que fazer, termina por lhe dar adeus. O rapaz fica encantado e, com aplicação, numa delicadeza de oferenda, faz gestos obscenos. As negras jovens pintam o rosto com traços ocre, e o lábio inferior com uma tinta cor de gangrena e azinhavre. Uma, a quem agrado o filho, diz:
baby nice, baby cry money - sua voz é tão cantante que parece encher de água uma bilha. O Capitão Young dá-lhe um níquel.
Baby cry big money, reclama ela, entornando a bilha com sua voz de risos. Eles riem muito, mesmo os de rosto melancólico; não há um traço de escárnio ou vontade de poder no riso; o riso é uma mistura de fascinação, humildade, curiosidade e alegria. Uma delas me olha atentamente. E muito de súbito brota em frase longuíssima, arenga sem raiva onde não reconheço um só
r ou
s, apenas variações na escala do
l, vaivém de lengalenga. Recorro ao intérprete. Ele resume curtíssimo:
she likes you. A moça então explode em outra lengalenga que dessa vez enche várias bilhas com chuva cantante. O intérprete: meu lenço de cabeça. Tiro-o, mostro-lhe como usá-lo. Quando vejo, estou cercada de pretas moças e esgalhadas, seminuas, todas muito sérias e quietas. Nenhuma presta atenção ao que ensino, e vou ficando sem jeito, assim rodeada de corças negras. Nos rostos opacos as listras pintadas me olham. A doçura contagia: também me aquieto. Uma delas então se adianta no seu pé leve, e como se cumprisse um ritual - eles se dão inteiramente à forma - pega nos meus cabelos, alisa-os, experimenta-os, concentrada. Todas assistem. Não me mexo, para não assustá-las. Quando ela acaba, há ainda um momento de silêncio. E eis que de repente tantos risos misturados e tantos espantos alegres como se o silêncio tivesse debandado.
(em Para não esquecer: crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. pp. 22-23)